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Nordeste ultrapassa Sul e vira a segunda maior região em gestão de patrimônio
Nordeste ultrapassa Sul e vira a segunda maior região em gestão de patrimônio

Região cresceu 752,1% em volume sob gestão em pouco mais de cinco anos e atrai instituições financeiras em busca de expansão fora dos grandes centros

O Nordeste ganha espaço na indústria de gestão de patrimônio e agora ocupa a segunda posição no ranking nacional em volume sob gestão, atrás apenas do Sudeste. Segundo os dados mais recentes da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), até 2025, a região Sul tinha R$ 56,3 bilhões sob gestão, contra R$ 55,3 bilhões no Nordeste. No primeiro semestre deste ano, o cenário se inverteu: o volume sob gestão na região cresceu 9,4%, para R$ 60,5 bilhões, enquanto o Sul recuou 1,2%, para R$ 55,8 bilhões.

O avanço não se limita apenas ao primeiro semestre. Desde 2020, o volume sob gestão nos estados nordestinos cresceu 752,1%. Trata-se da maior alta entre as cinco regiões do País. O Norte aparece em seguida, com avanço de 516,7% no mesmo período, enquanto o Sul cresceu 164,3%, o Centro-Oeste, 119,2%, e o Sudeste, 115,7%.

Apesar do avanço das regiões fora do principal eixo financeiro do País, a indústria ainda permanece concentrada no Sudeste. A região teve a menor alta percentual desde 2020, mas mantém R$ 407,5 bilhões sob gestão. Apenas o estado de São Paulo responde por 73% desse total.

Gestoras veem espaço para crescer no Nordeste

Os números refletem um movimento que vem se consolidando nos últimos anos: a busca das gestoras de investimentos por novas frentes de expansão dos seus negócios. Entre os escritórios da AVIN Investimentos, gestora com quase R$ 19 bilhões sob gestão, as unidades de Fortaleza (CE), Teresina (PI) e Salvador (BA) apresentam as maiores projeções de crescimento. Enquanto a média das demais praças gira em torno de 20% ao ano, a expectativa nesses três locais é de avanço entre 25% e 30%.

Segundo Thiago Fujiwara, sócio e membro do conselho da AVIN, a expansão no Nordeste está relacionada à carência de atendimento especializado para investidores e famílias de alta renda na região. “Havia uma demanda recorrente por um atendimento personalizado, porque os grandes bancos de varejo começaram a oferecer um relacionamento mais digitalizado e menos customizado ao cliente. O atendimento qualificado estava muito concentrado em São Paulo”, afirma o executivo.

A gestora nasceu da fusão, em 2024, entre duas assessorias de investimentos, Acqua Vero e SWM, que já mantinham escritórios em Fortaleza (CE). Hoje, o grupo possui duas frentes de atuação na região: carteiras administradas para clientes de alta renda e gestão de recursos voltada a investidores de altíssima renda, com patrimônio superior a R$ 10 milhões. A combinação das operações também permitiu ampliar a oferta de produtos financeiros e estratégias de investimento para esses clientes.

Como mostramos nesta reportagem, em 2025, os clientes do Ceará, principal praça da gestora no Nordeste, quase triplicaram suas alocações no exterior, uma estratégia que, até então, não fazia parte de suas carteiras de investimentos. “Os investidores do Nordeste são bem conservadores”, diz Fujiwara.

O crescimento da demanda também reflete experiências negativas com assessoramento inadequado ou carteiras desalinhadas ao perfil de risco. Em alguns casos, a busca dos investidores por uma gestora local ocorre após problemas de liquidez ou investimentos malsucedidos.

Na Astor Partners, multifamily office com R$ 1,5 bilhão sob gestão, que atende famílias da Paraíba, de Pernambuco, do Ceará e da Bahia, alguns clientes chegaram à casa com ativos incompatíveis com o momento de vida ou exposição excessiva a produtos com alto risco de default (calote). Segundo Ravi Macêdo, sócio da Astor, esses casos abrem janelas de oportunidade à medida que a asset constrói uma relação de confiança com as famílias e oferece suporte alinhado aos seus objetivos.

“Nos tornamos conselheiros financeiros em diferentes aspectos da vida patrimonial das famílias. Avaliamos os outros negócios em que o cliente pretende investir, discutimos a sucessão e o planejamento familiar. Olhamos para o patrimônio como um todo”, detalha Macêdo.

Ao mesmo tempo, o executivo aponta o desafio de ampliar a cultura de investimentos em produtos financeiros entre os clientes locais. Segundo ele, investidores nordestinos ainda demonstram maior preferência por ativos reais, como imóveis e participações em empresas. “Existe um trabalho gradual de começar a implementar uma visão mais de portfólio para equilibrar a equação de risco e retorno”, acrescenta.

Além da gestão de fortunas

O mercado de capitais no Nordeste ganha espaço para além da gestão de grandes fortunas. Segundo Bruno Barreto, advogado especializado na área e sócio da Urbano Vitalino Advogados, na esteira da expansão de consultorias de investimentos e gestoras, players locais também avançam na estruturação de fundos, operações de crédito e outros produtos financeiros, como os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs).

O escritório presta assessoramento jurídico na estruturação dessas operações, tanto para gestoras de investimentos quanto para empresas privadas. Segundo Barreto, a primeira emissão também é importante para que as companhias ganhem visibilidade no mercado e construam um track record, ou histórico de atuação, ampliando as possibilidades de realizar novas operações.

“Depois da primeira emissão, o mercado de capitais enxerga a empresa e, apesar das variáveis econômicas, as emissões seguintes tendem a ter mais sucesso porque o mercado já não desconfia tanto quanto na primeira vez, ressalta. “Eu sempre digo que, de Salvador para cima, há um ‘oceano azul’ para atuação dos gestores. Há potenciais clientes que acessam pouco o mercado financeiro, seja por receio ou por desconhecimento”, diz Barreto.

É pensando neste “oceano azul” que a Leto Capital, gestora com R$ 23 bilhões sob gestão, concentra parte de sua expansão. Em julho, a asset adquiriu os fundos de crédito da Novus Capital e trouxe para a equipe os sócios Rafael Gama e Victor Ary. Os executivos têm mais de dez anos de experiência na estruturação de operações de crédito privado no Ceará quando atuavam na Grifo Capital, gestora incorporada pela Novus em 2024.

Para Alexandre Muller, sócio da Leto Capital, a experiência da equipe permite à gestora ampliar sua atuação no Nordeste e explorar novas oportunidades de investimentos ligadas à economia real, como projetos de infraestrutura digital. No Ceará, por exemplo, a construção do data center da ByteDance, dona do TikTok, no Complexo do Porto do Pecém, na região metropolitana de Fortaleza, evidencia o potencial da região para atrair investimentos nesse segmento. Como mostrou o Estadão, a escolha do local está relacionada à presença de diversos cabos submarinos de internet que conectam o Brasil a outros continentes.

Confira a reportagem completa no Estadão. 

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